Cláudia Bastos Coelho – Convidada especial
Este ano a África do Sul sediará a primeira Copa do mundo de futebol realizada na África. Com os investimentos para o evento, o país ganhará modernos estádios e um incremento em sua infra-estrutura para garantir o acesso aos jogos. Este post é uma tentativa de mostrar um pouco da arquitetura sul africana, aproveitando o momento de grande evidência do país entre os povos de todo o mundo.
Quando me propus a escrever sobre a arquitetura da África do Sul, logo percebi que tinha um grande desafio pela frente. Apesar de algumas influências da cultura africana em nossa própria cultura, o desconhecimento sobre o continente africano é tamanho, que a primeira pergunta que fiz foi: O que há de significativo na arquitetura da África do Sul?
Contrariando meus preconceitos, dei de cara na edição de janeiro da revista Projeto e Design, com o projeto do arquiteto Peter Rich para o Centro de Interpretação em Mapungubwe, que recebeu o título de edifício do ano no World Architecture Festival, desbancando grandes nomes da arquitetura internacional. Trata-se de um edifício pequeno e simples, construído com materiais e técnicas locais e que, para grande orgulho do arquiteto, contou com a participação da população em sua concepção e execução.
As formas arredondadas com tonalidades em ocre do projeto de Peter Rich lembram algo das marcantes habitações Zulus, povo que resistiu contra a colonização inglesa e bôere* na região, e corresponde hoje a cerca de 22% da população sul africana. Mas talvez os traços mais marcantes da herança local na arquitetura da África do Sul estejam nas coloridas construções do povo Ndebele. Estudos indicam que suas construções originais eram construídas na forma de grandes cúpulas de palha, assim como as habitações zulus. Porém, com a colonização e a necessidade de se unir a outros povos, os Ndebeles se aliaram ao povo Pedi, e acabaram adotando suas características construtivas. As habitações passaram a ser construídas em forma de cilindro, geralmente de madeira e barro, com uma cobertura cônica de palha. A pintura também apresenta padrões característicos herdados do povo Pedi.
Habitação Zulu em KwaZulu-Natal
Habitação Ndebele próxima a Hartbeespoort Dam – Habitação Ndebele em Mpumalanga
fonte: Southafrica.info
A arquitetura sul africana também recebeu bastante influência de seus colonizadores. Podemos citar como exemplo a arquitetura holandesa do Cabo e os edifícios de influência inglesa que abrigam instituições e residências em diversas cidades do país.
Nos estados do Cabo a arquitetura colonial holandesa se configurou de forma única. Inicialmente as edificações eram simples e erguidas geralmente com materiais locais, como barro e cascalho e mais tarde tijolos cerâmicos. Com a prosperidade das fazendas de vinho da região, a área das construções cresceu e surgiram as características empenas decoradas.
Construções em estilo colonial holandês com empenas decoradas
fonte: Wikipedia
Em estilo Monumental inglês podemos destacar os Union Buldings, que abrigam a sede do governo sul africano em Pretória. Considerado por muitos como uma obra-prima da arquitetura da África do Sul, o complexo em forma semi-circular, representa a união de dois povos, onde uma das asas corresponde à cultura inglesa e a outra aos povos africanos. O edifício é cercado ainda por um grande jardim, com vegetação característica da África.
Como em qualquer grande cidade ao redor do mundo, também encontramos na África do Sul exemplares da arquitetura contemporânea de grande qualidade. Pude conhecer alguns através do site URBARAMA , como o Freedom Park, a House Rosa e a Dune House. Há também outros exemplares contemporâneos de qualidade questionável como o Diamond Building em Joanesburgo, que extrapola a escala da cidade, embora, aparentemente, a fachada envidraçada tenha a função de refletir o céu, fazendo com que o edifício se dilua na paisagem.
E para finalizar, quando constatamos que a realidade das cidades sul africanas não é diferente da de outras cidades em países em desenvolvimento, não podemos deixar de lembrar dos subúrbios. O mais famoso deles, o distrito de Soweto, em Joanesburgo, abriga desde sobrados a barracos de madeira e se tornou um símbolo de enfrentamento à opressão, sendo origem de muitos heróis da luta contra o apartheid.
Subúrbio de Soweto em Joanesburgo
Fonte: BBC
*(descendentes dos colonos calvinistas dos Países Baixos, França e Alemanha)
A arquitetura no sul da África
Por Cláudia Bastos Coelho, Arquiteta, autora convidada.
Na próxima edição: Os Estádios da Copa.














1 Comentário
[...] This post was mentioned on Twitter by Diogo Lima, Diogo Lima. Diogo Lima said: Fiddling with my blog post: A arquitetura no sul da África – Especial ( http://www.cachorrosolitario.com/?p=2822 ) [...]